EMO: Voltou ou nunca foi embora?

Por Nichole Perez

Se você foi um adolescente nos anos 2000 ou simplesmente pai, irmão, primo ou tio de um, certamente já escutou a frase “coitado de fulano, ele é emo”. E, digo mais, com certeza já foi chamado de emo na rua ou na escola sem ao menos saber o que aquilo significava. Estamos falando aqui de um dos movimentos culturais mais polêmicos da atualidade, que causava muito amor e revolta.

Mas quem eram os emos? O que comiam e onde habitavam? O emo ainda está vivo? Essa matéria vai contar um pouco dessa história! Então, não se choque se ao final você descobrir que esse tempo todo você foi fortemente influenciado por essa cultura e mais do que isso: você ainda é emo!

Um “pouco” de história

Quando falamos de movimentos e tribos sociais, as primeiras características da sociedade moderna começam a aparecer entre os anos 50 e 60. Isto, com a democratização da cultura. Foi nessa época que a massa social começou a receber (e aceitar) os primeiros sinais da cultura de rua no consumo cultural e social. A música e a arte deixam de uma vez por todas de ser conteúdo elitista e passam a ser conteúdo massificado, de fácil acesso e para todos.

Adolescentes da década de 1950, começando sua transformação social.

Portanto, esses são os primeiros passos de expansão territorial de cultura (globalização) e momentos de contracultura, como os punks, os hippies, o skate, e as bandas de garagem. Mas o que tudo isso teria em comum? Nada, se não fosse uma palavra simples, composta por 4 letras e milhares de significados: Rock.

Rock ‘n’ Roll High School

Nós sabemos a importância de todos os momentos culturais que mudaram o mundo. Entretanto, nada fez (e faz) tanto barulho quanto o bom e velho Rock’n’Roll e suas inúmeras vertentes.

O punk entrava para a história com os Sex Pistols em 1975 com o deboche nítido contra a realeza inglesa e apologia a anarquia.

Beatles e sua psicodelia, a anarquia dos Sex Pistols, os gritos de Ozzy Osbourne com o Black Sabbath, o progressivo do Pink Floyd, o experimental do Queen e a melancolia de Kurt Cobain no Nirvana. Esses são apenas alguns dos exemplos de grandes bandas que souberam passar suas mensagens e falar das suas lutas pessoais com uma linguagem universal, para que o mundo todo se identificasse.

(Confira 13 grandes hits do rock que passaram muita mensagem clicando aqui)

Cena do filme “The Wall” (1982), inspirado na ópera rock do Pink Floyd. A obra tem como tema centra a queda do muro de Berlin e trata de opressão, ansiedade, abuso de poder, fama, drogas e outros temas.

O Rock, assim como outros estilos, trouxe sentimento de representatividade e pertencimento para jovens e adolescentes que precisavam se apoiar em novas crenças no final do século XX, diante de um crescimento tão acelerado. Aliás, é importante dizer que foi só na década de 1960 que o mundo começa a reconhecer e alimentar a cultura “adolescente” com produtos e lazer, uma vez que, até esse período, a criança “pulava” para a fase adulta nos seus 18, 19, depois de anos de preparação para essa vida, que se iniciavam aos 11, 12 anos (ou até antes).

Mas porque isso é tão importante para o emo? É importante pois, ao contrário do que muito se diz e pensa, o movimento emo pouco foi caracterizado pela música ou pelo visual, mas sim por um pensamento que na verdade não era muito “novo”, era apenas uma nova forma se expressar.

Leave EMO alone!

Pensa no mundo da virada do século. A cultura estadunidense não esteve tão inserida numa escala global. Os movimentos de rap, pop rock e pop ganhavam muito força e davam voz para adolescente de todo o mundo. Isso, juntamente com uma coisinha chamada internet, que passou a invadir nossas casas. Deste modo, pela primeira vez na história as pessoas se expressavam atrás de telas e seus discursos alcançavam lugares imensuráveis.

A mistura de estilos, muita pela de fora e uma cultura extremamente sensual caracteirazam as Pussycat Dolls e outros diversos conjuntos da época.

Pensando no contexto de hits e moda, Britney Spears vira a nova princesinha do pop, Paris Hilton é alvo massivo de tabloides com sua vida luxuosa, o primeiro Ipod surge e para mudar a história da tecnologia, as boybands são os sucessos de fãs histéricas e tudo é extremamente extravagante. Dinheiro, luxo e fama são “novos” desejos e, de repente, alguns conceitos – que até então eram considerados superficiais – acabam virando motivo de status. Culto ao corpo, as famosas “panelinhas” e bullying foram alguns termos que caíram na boca do povo e da mídia.

“Meninas Malvadas” foi um dos primeiros filmes a tratar o bullyng e suas consequências abertamente e, acredite, muitas meninas sonhavam em ser a malvada Regina George.

Mas, se você já leu alguma matéria de comportamento desse blog, deve imaginar aonde estamos querendo chegar. Onde há uma tendência forte de comportamento, sempre terá uma contracultura e é exatamente neste momento que os emos chegam com os dois pés no peito da sociedade.

Passeata emo nos EUA em prol da vida adolescente, anos 2000.

Entenda um pouco sobre o Camp Style, grande movimento de contracultura que a estética passa na nossa sociedade. Clique aqui.

Choque de cultura

Cabelos coloridos, roupas pretas, estampas em preto e branco, muitos piercings e tatuagens: o emo chegou para chocar. Com músicas melódicas, em ritmos de rock, punk, metal e muito pop (não podemos negar), diversas bandas adotaram o estilo para protestar sobre todas as coisas que incomodavam. Assim, passando mensagens de coração partido, rebeldia ao governo, problemas familiares e qualquer insatisfação que pudesse virar letra de música.

My Chemical Romance no clipe de “I´m Not Okay”, um dos hinos da comunidade emo.

Mas é claro que com todo comportamento social vem o capital. Portanto, não demorou muito para a cultura virar uma enorme máquina de dinheiro. Logo, marcas perceberam a presença emo em massa e não demorou para tudo virar produção e venda em massa. As pulseiras de spike e cintos de rebite eram os favoritos em camelôs, camisetas de bandas eram vendidas a cada esquina e o número de estúdios de body art triplicou num período muito curto de tempo. Por outro lado, as grandes marcas da moda também passaram a usar os motivos do emocore nas passarelas mais famosas do mundo. Assim, as bandas famosas faturaram milhões com os seus “novos estilos”. Era um fato: se fosse emo, vendia.


Jackal Kuzu e Cabaret Aki – S/S 2009, na Semana de Moda de Tóquio.

Novo movimento… Será?

Misfits, banda de horror punk criada em 1977.

Contudo, volte um pouco no contexto histórico e pare para refletir: o que de verdade o emo trouxe para a sociedade? O spike e o rebite já eram características básicas do movimento punk. A banda The Cure já era famosa pelas músicas melódicas com o sucesso de “Boys Don’t Cry”. Assim como o Nirvana já liderava o movimento grunje com camisas xadrez e a tristeza estampada nas suas letras, o Misfits já usavam maquiagem pesadíssimas e cabelo na cara. Pensando dessa maneira, a verdade é que eles não trouxeram nada, certo? ERRADO!

“I tried to laugh about it; Hiding the tears in my eyes; ‘Cause boys don’t cry”
The Cure, sucesso dos anos 80

Como já conversamos aqui também (leia a matéria do “Hot Pink” clicando aqui), a moda acontece de forma cíclica, para que mantenha o equilíbrio social. Da mesma maneira que a contracultura equilibra o momento que vivemos, antigos comportamentos sempre serão repetidos quando precisarmos reencontrar nossa essência.

A verdade é que, junto com o universo multitela, a globalização e o gigante pulo tecnológico que vivemos na virada do século, veio a solidão, principalmente de jovens e adolescentes que não entendiam muito bem seus lugares na sociedade. O atentado de 11 de Setembro assombrava o mundo inteiro, a ansiedade e depressão viraram problemas (graves) até para pessoas que, aparentemente, tinham tudo o que precisavam, e a violência crescia em todo o mundo. É natural que a expressão dos sentimentos se traduza em moda e arte. Afinal, a gente vê isso acontecendo desde que o homem é homem.

O mais importante de tudo isso é entender que por mais que o estilo não fosse uma grande inovação cultural, perto de tudo o que ocorreu naquela época, o emo serviu para algo que talvez fosse até mais importante: deu a liberdade para as pessoas serem quem são. Ele trouxe o estranho e incomum para o nosso dia-a-dia e mostrou que ser diferente é muito legal.

Onde estão os EMOS hoje?

O Virgula postou uma matéria muito legal com alguns antes e depois de uma galera que foi fielmente Emo nos anos 2000. Você pode conferir aqui!

Se for pensar em termos visuais, em todo lugar. Pois, não houve um dia, desde o começo dos anos 2000, que não se viu naturalmente um elemento da cultura se repetindo na moda. Como por exemplo os otakus, o (new) new waves, skas, hipsters, indies, ou neo punks. Até mesmo, quem possui o estilo mais hype de todos mantém um all star ou um vans no guarda roupa. Podendo, também, possuir muitas tatuagens, cabelo tingido de cores e formas inusitadas e assim, consegue expor suas insatisfações para encontrar acolhimento.

Gravata, suspensório e muitas tatuagens também fazer parte do estilo hipster.

É claro que os esteriótipo fica cada vez mais difícil de encontrar, mas que estilo pode definir uma pessoa completamente em tempos de internet, globalização e 6 bilhões de pessoas? Hoje vivemos o momento de multiculturas, onde precisamos aceitar as pessoas que somos, as pessoas que nos cercam e simplesmente aprender a crescer e evoluir com o mundo.

Bloco Emo no carnaval da Barra Funda, em pleno 2018. Fonte: Bol

Assim, esta é uma matéria que serve para provar que, no fundo, o movimento emo faz parte da história de qualquer adolescente dos anos 2000 e certamente fará parte da vida de muitos outros.

Duvida? Então escuta esta playlist nostálgica e dá uma olhada na seleção de peças da TROC que preparamos pra você bem ao estilo “welcome to my life” e quebre as correntes do seu emo reprimido!

TROC IDEIAS